A situação da Móveis Três Irmãos S.A., tradicional indústria do setor moveleiro com sede em Campo Alegre e unidade em Caçador, chegou a um ponto crítico. Em manifestação protocolada na Justiça, a Administração Judicial responsável pelo processo de recuperação judicial da empresa requereu a convolação da recuperação em falência, alegando descumprimento do plano aprovado pelos credores, inadimplência de obrigações e agravamento do quadro econômico-financeiro da companhia.
Segundo o documento apresentado pelo Instituto Recupere, administrador judicial do processo, a empresa enfrenta um cenário de insolvência avançada, marcado por dificuldades operacionais, paralisação da produção na unidade de Campo Alegre há aproximadamente três semanas e incapacidade de cumprir compromissos assumidos junto aos credores.
O relatório aponta que a companhia acumula patrimônio líquido negativo superior a R$ 5 milhões e possui passivo circulante de R$ 76,4 milhões, frente a um ativo circulante de R$ 44,3 milhões. Além disso, a disponibilidade imediata de caixa seria inferior a R$ 700 mil, valor considerado insuficiente diante do volume de obrigações de curto prazo.
Outro fator que pesou na manifestação da Administração Judicial foi o descumprimento de parcelas previstas no Plano de Recuperação Judicial. Diversos credores relataram atrasos nos pagamentos, incluindo empresas fornecedoras e prestadoras de serviços. A própria administradora judicial informou ter identificado outros inadimplementos além daqueles já comunicados nos autos.
O documento também destaca atrasos em parcelamentos tributários estaduais e federais, além da existência de um passivo extraconcursal estimado em cerca de R$ 46 milhões, composto principalmente por financiamentos vinculados às operações de exportação da empresa.
Nos últimos meses, a Móveis Três Irmãos registrou forte redução em sua atividade produtiva. O quadro de funcionários caiu de aproximadamente 580 empregados, em maio de 2025, para cerca de 300 trabalhadores em abril deste ano. A produção industrial e o faturamento também apresentaram retração significativa.
De acordo com a Administração Judicial, apesar de a empresa ter apresentado lucro contábil em abril, o resultado foi sustentado por receitas financeiras e eventos não operacionais. A atividade industrial propriamente dita continua operando com prejuízo.
Outro ponto levantado é a falta de prestação de contas sobre a destinação dos recursos obtidos com a venda de imóveis autorizada pela Justiça durante a recuperação judicial. Os bens haviam sido alienados para viabilizar investimentos previstos no plano de recuperação, mas, segundo a Administração Judicial, a empresa não comprovou a aplicação dos valores arrecadados.
Paralelamente, a empresa apresentou proposta para entrada de um novo investidor, prevendo a transferência do controle societário e a obtenção de financiamento de até R$ 6,5 milhões. Contudo, a Administração Judicial manifestou preocupação com os riscos da operação, afirmando que as garantias oferecidas envolvem ativos estratégicos e recebíveis futuros da companhia, o que poderia agravar ainda mais a situação financeira.
Diante do conjunto de fatores — descumprimento do plano de recuperação, inadimplência tributária, paralisação das atividades produtivas, deterioração financeira e incapacidade de geração de caixa — a Administração Judicial concluiu que estão presentes os requisitos previstos na Lei de Recuperação Judicial e Falências para a decretação da falência da empresa.
Agora, caberá ao Juízo responsável pelo processo analisar a manifestação e decidir se a recuperação judicial será mantida ou se a Móveis Três Irmãos terá a falência decretada. A decisão poderá impactar diretamente credores, trabalhadores, fornecedores e toda a cadeia produtiva ligada à empresa na região.