O Paraguai deu mais um passo em sua estratégia de ampliar a industrialização e atrair novos investimentos. O Governo anunciou, em setembro, o Programa Paraguay Industrial, uma linha inicialmente estruturada com US$ 100 milhões para financiar projetos industriais, acompanhada da criação do Fondo de Garantía para la Industria (FOGAIN).
O anúncio foi realizado no dia 16 de setembro, durante a comemoração dos 90 anos da Unión Industrial Paraguaya (UIP), com a participação do presidente Santiago Peña, do ministro da Indústria e Comércio, Marco Riquelme, além de autoridades e representantes do setor privado.
A iniciativa busca atacar um dos principais desafios para investimentos industriais: a necessidade de capital de longo prazo compatível com o período de implantação, maturação e retorno de uma indústria.
As condições anunciadas chamam a atenção: financiamento de até US$ 2,5 milhões por beneficiário, prazo de até 15 anos, carência de até três anos e taxas finais de 8,5% ao ano em dólares e 10,5% ao ano em guaranis.
Os recursos poderão financiar construção e ampliação de plantas industriais, infraestrutura, máquinas e equipamentos, incorporação de tecnologia, modernização de processos e aumento da capacidade produtiva. Também está prevista a possibilidade de financiar capital operacional associado ao investimento, dentro dos limites estabelecidos pelo programa.
Uma nova etapa para a indústria paraguaia
Durante o lançamento, o presidente Santiago Peña relacionou as novas ferramentas ao processo de transformação da estrutura produtiva do país. “Paraguay se encuentra ante una nueva etapa de transformación productiva”, afirmou Peña, ao destacar a diversificação da economia e os avanços da capacidade industrial e exportadora do país.
Em outra manifestação, o presidente sintetizou o cenário que o Governo pretende apresentar aos investidores: “Hoy la mesa está servida”, afirmou Peña, ao citar fatores como energia limpa, estabilidade econômica, grau de investimento, financiamento de longo prazo, acesso aos grandes mercados internacionais e a posição geográfica estratégica do Paraguai.
A nova linha faz parte de um conjunto mais amplo de medidas apresentadas pelo Governo. Além do Paraguay Industrial, foi anunciado o FOGAIN e apresentado um projeto de modernização da estrutura institucional do Ministério de Industria y Comercio.
Para o ministro Marco Riquelme, a questão do financiamento é uma das peças necessárias para avançar na industrialização. “Este crédito no solamente va a dar una solución a las industrias que quieran invertir, sino también va a poner a prueba al sector financiero”, afirmou o ministro ao apresentar a iniciativa.
Segundo o MIC, os US$ 100 milhões foram estruturados em conjunto com a Agencia Financiera de Desarrollo (AFD), Banco Nacional de Fomento (BNF) e Ministerio de Economía y Finanzas (MEF).
Crédito não significa aprovação automática
Apesar das condições atrativas, existe uma diferença importante entre a disponibilidade de uma linha de financiamento e a efetiva aprovação dos recursos para determinado empreendimento.
O Paraguay Industrial será operacionalizado por meio de Instituciones Financieras Intermediarias (IFIs) habilitadas pela AFD, incluindo bancos, financeiras e cooperativas.
São essas instituições que deverão realizar a análise de cada operação. O Ministerio de Industria y Comercio, por sua vez, terá participação na verificação da elegibilidade dos projetos de acordo com os critérios do programa.
Isso significa que o empresário interessado precisará apresentar mais do que uma intenção de investimento. O projeto deverá demonstrar sua consistência industrial, econômica e financeira, além da capacidade de pagamento, enquadramento da atividade e demais condições exigidas pela instituição financeira.
FOGAIN busca enfrentar o problema das garantias
Outro elemento relevante é a criação do Fondo de Garantía para la Industria – FOGAIN.
O mecanismo foi anunciado para apoiar projetos industriais que apresentem condições de financiamento, mas necessitem de garantias complementares para viabilizar a operação.
A utilização do fundo deverá ser opcional e dependerá das características e necessidades de cada financiamento.
A combinação de crédito de longo prazo com um mecanismo de garantia representa uma tentativa de enfrentar dois gargalos tradicionais de projetos industriais: prazo e garantia.
O desafio agora é transformar oportunidades em projetos
Para o empresário brasileiro e conselheiro internacional Jonathan Roger Linzmeyer, que acompanha projetos de internacionalização e implantação industrial no Paraguai, a nova linha amplia as alternativas disponíveis, mas reforça a necessidade de planejamento antes da decisão de investir.
“O financiamento é uma ferramenta importante, mas ele não substitui a viabilidade do negócio. Antes de discutir quanto uma empresa pode captar, precisamos entender se o projeto industrial se sustenta, onde deve ser instalado, qual será sua estrutura de custos, de onde virá a matéria-prima, para quais mercados irá vender e qual será sua capacidade de geração de caixa.”
Na avaliação de Linzmeyer, o momento exige que investidores diferenciem oportunidade financeira de viabilidade empresarial. “Um projeto não deve ser criado porque existe crédito disponível. Primeiro precisamos construir um projeto viável. Depois analisamos quais instrumentos financeiros, tributários, logísticos e institucionais podem contribuir para torná-lo ainda mais competitivo.”
Esse processo ganha relevância especialmente para empresas brasileiras que estudam instalar parte de sua produção no Paraguai. Além da análise financeira, uma decisão industrial pode envolver questões relacionadas à localização, energia, mão de obra, matéria-prima, logística, fornecedores, mercado interno, exportação, estrutura tributária e regimes específicos, como o de Maquila.
Estudo de viabilidade ganha ainda mais importância
Com a criação de novas ferramentas de financiamento, o Estudo de Viabilidade Industrial e Logístico passa a ter também uma função importante na preparação dos projetos que poderão futuramente buscar recursos.
A análise deve considerar diferentes cenários antes da implantação: investimento necessário, CAPEX, custos operacionais, capacidade produtiva, origem dos insumos, logística de entrada e saída, mercados consumidores, tributação, incentivos, necessidade de capital de giro e projeções econômico-financeiras.
“Quando falamos em industrialização, estamos falando de decisões que normalmente envolvem milhões de dólares e muitos anos de operação. Um bom estudo não serve apenas para mostrar por que investir. Ele precisa também mostrar os riscos, os pontos de atenção e, inclusive, quando determinado projeto não é viável”, destaca Linzmeyer.
Para ele, essa é uma mudança importante na forma como o empresário deve observar o Paraguai. “Não se trata simplesmente de transferir uma empresa do Brasil para o Paraguai. Internacionalização exige entender como aquele negócio funcionará dentro de uma nova realidade produtiva, tributária, logística e comercial.”
Paraguai busca agregar valor à sua produção
O lançamento acontece em um momento em que o país procura aumentar o peso da indústria, ampliar exportações de maior valor agregado e atrair novos projetos produtivos.
O Governo vem apresentando essa agenda como parte de uma estratégia de transformação industrial, combinando atração de investimentos, infraestrutura, energia, abertura de mercados, regimes de incentivo e, agora, novos instrumentos de financiamento.
O Paraguay Industrial está inicialmente direcionado a indústrias de médio e grande porte interessadas em ampliar capacidade, incorporar tecnologia e potencializar exportações. Entre os setores destacados estão agroindústria, alimentos e bebidas, metalmecânica, têxtil e confecções, madeira e seus derivados, sem excluir outras atividades industriais elegíveis.
Para investidores, porém, o anúncio abre uma oportunidade que precisa ser analisada com critério.
As condições gerais do programa já foram apresentadas, mas procedimentos operacionais, critérios específicos, documentação, análise das garantias e enquadramento de cada projeto deverão ser observados conforme as regulamentações e orientações das instituições responsáveis.
A mensagem para o mercado, portanto, vai além dos US$ 100 milhões anunciados.
O Paraguai começa a construir novas ferramentas para financiar sua expansão industrial. Para as empresas, o próximo passo será transformar intenção de investimento em projetos estruturados, tecnicamente viáveis e financeiramente sustentáveis.